Sou um homem comum, de carne e de memória, de osso e esquecimento. Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião e a vida sopra dentro de mim, pânica, feito a chama de um maçarico, e pode subitamente cessar.
Sou como você, feito de coisas lembradas e esquecidas, rostos e mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia em Pastos-Bons, defuntas alegrias, flores, passarinhos, fecho de tarde luminosa, nomes que já nem sei, bocas, bafos, bacias, bandejas, bandeiras, bananeiras, tudo misturado, essa lenha perfumada que se acende e me faz caminhar.
Sou um homem comum, brasileiro, maior, casado, reservista, e não vejo na vida, amigo, nenhum sentido, senão lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino. Mas a poesia é rara e não comove nem move o pau-de-arara. Quero, por isso, falar com você, de homem para homem, apoiar-me em você, oferecer-lhe o meu braço que o tempo é pouco, e o latifúndio está aí, matando.
(...)
Homem comum, igual a você, cruzo a avenida sob a pressão do imperislismo. A sombra do latifúndio mancha a paisagem, turva as águas do mar e a infância nos volta à boca, amarga, suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho e margaridas.