Sóstenes Antônio de Arruda
   
 
   



BRASIL, Homem, de 36 a 45 anos, sostenes.arruda@uol.com.br
 

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Homem Comum, do Ferreira Gullar

Sou um homem comum, de carne e de memória, de osso e esquecimento. Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião e a vida sopra dentro de mim, pânica, feito a chama de um maçarico, e pode subitamente cessar.

 

Sou como você, feito de coisas lembradas e esquecidas, rostos e mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia em Pastos-Bons, defuntas alegrias, flores, passarinhos, fecho de tarde luminosa, nomes que já nem sei, bocas, bafos, bacias, bandejas, bandeiras, bananeiras, tudo misturado, essa lenha perfumada que se acende e me faz caminhar.

 

Sou um homem comum, brasileiro, maior, casado, reservista, e não vejo na vida, amigo, nenhum sentido, senão lutarmos juntos por um mundo melhor.

 

Poeta fui de rápido destino. Mas a poesia é rara e não comove nem move o pau-de-arara. Quero, por isso, falar com você, de homem para homem, apoiar-me em você, oferecer-lhe o meu braço que o tempo é pouco, e o latifúndio está aí, matando.

 

(...)

 

Homem comum, igual a você, cruzo a avenida sob a pressão do imperislismo. A sombra do latifúndio mancha a paisagem, turva as águas do mar e a infância nos volta à boca, amarga, suja de lama e de fome.

 

Mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho e margaridas.

 



Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 21h03
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