Os olhos dela nos meus
Ouvi da Lilian Vogt que algumas fotos ordinárias que fiz tinham uma certa força e o semblante maculado. É claro que fiquei envaidecido com a atenção que ela dispensou ao comentar, mas achei prudente tomar como um elogio gentil, de encorajamento. Afinal, uma mulher como aquela, com aqueles olhos de Calú (a do Caetano), falando daquele jeito de um reles lambe-lambe... É muito pra uma noite de domingo.
Não tenho dúvida da exata modéstia do trabalho, mas sou forçado a reconhecer que meus olhos carregam sim as nódoas do que já viram e isso acaba enodoando as coisas que faço. É difícil fugir disso mesmo em tarefas simples, como determinar um objetivo fotográfico despretencioso. O tema invariavelmente traduz e denuncia sutilmente boa parte do estado de espírito. É um pouco mais ou menos como escrever por parábolas e metáforas - recurso que também utilizo à larga nas coisas que cometo. É uma espécie de fuga e ao mesmo tempo uma trilha que pode conduzir o observador mais atento ao verdadeiro sentido das coisas.
E a Lílian percebeu um pouco da perspectiva. Foi mesmo uma pena ter me privado do convívio mais estreito com ela durante tanto tempo.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 21h59
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