Sóstenes Antônio de Arruda
   
 
   



BRASIL, Homem, de 36 a 45 anos, sostenes.arruda@uol.com.br
 

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Como é viver na Faixa de Gaza?

O esqueleto de um decodificador de sinal de satélite está jogado num canto das ruínas da casa da família Ghaben, em Beit Lahiya, ao norte da faixa de Gaza. Minutos antes do impacto, Hadil, de 8 anos, havia desligado a televisão para permitir ao seu irmão primogênito fazer o dever de casa. "De repente os bombardeios israelenses recomeçaram. As explosões se aproximavam da nossa casa, eu reuni meus filhos perto de mim. Depois de alguns segundos, senti uma dor violenta nas costas e uma forte pancada na cabeça, como se alguém me desancasse. Vi uma bola de fogo e desmaiei", conta Safeya, a mãe.

 

Ao acordar na manhã de 11 de abril, no hospital, Safeya foi informada de que Hadil havia morrido e que outros nove dos seus onze filhos estavam feridos, dos quais três gravemente. A bomba deixou um buraco no já combalido telhado de chapa de ferro. Assim como ocorre com freqüência, os tiros haviam começado no final da tarde. Os onze filhos da família Ghaben estavam entretidos na leitura ou brincavam na sala principal. O pai, Mohammed, um pintor da construção civil desempregado, passeava pelo emaranhado de vielas arenosas que cercam sua casa, no norte da faixa de Gaza.

 

Já faz mais de um mês que os canhões israelenses bombardeiam a região para prevenir os tiros de foguetes artesanais disparados pelos grupos armados palestinos. Em geral, os obuses caíam e explodiam nos campos dos arredores. Esses locais são utilizados pelos militantes palestinos para disparar foguetes Qassam, artefatos artesanais que de vez em quando atingem a zona industrial de Ashkelon e a cidade de Sderot, muito perto de lá. Na maioria dos casos essas cargas explosivas caem na água ou no descampado, sem provocar dano algum. Contudo, vários habitantes de Sderot foram mortos.

 

O ministro israelense da defesa, Shaul Mofaz, anunciou na terça-feira o endurecimento das operações militares. "Enquanto a calma não reinar do lado israelense, ela não reinará do lado palestino. As nossas operações vão ficar cada vez mais amplas e intensas", afirmou Mofaz.

 

Segundo informam os meios de comunicação israelenses, o exército ampliou a "zona proibida" submetida aos bombardeios, de modo que o seu limite de alcance passou a uma distância de 100 metros apenas das casas palestinas. Cerca de 300 obuses explodem diariamente no norte da faixa de Gaza.

 

Em meio aos destroços da sua casinha, onde ele fuma um cigarro depois do outro, Mohammed recusa esta explicação. "É um pretexto que eles dão toda vez que crianças são atingidas. Não havia nenhum militante em nossa casa nem na vizinhança. De qualquer forma, a gente não os deixaria fazer isso a partir deste lugar", desabafa. No dia que se seguiu ao drama, um oficial israelense contatou Mohammed por telefone. O exército israelense normalmente cancela as autorizações de entrada em Israel dos parentes das vítimas, por temer uma possível vingança, mas desta vez o oficial israelense lhe ofereceu uma autorização como reparação. "Ele me disse se chamar Gavi e ser responsável pela segurança nas fronteiras. Durante vinte anos eu trabalhei em Israel, até que a minha autorização me seja retirada sem razão, há um ano e meio. Eu rechacei a sua oferta. Como pode ele imaginar que eu possa ter vontade de ver judeus depois do que aconteceu comigo?", diz Mohammed.

 

Na barraca de luto levantada para as mulheres, um pouco afastada da casa atingida, Safeya recebe condolências de suas vizinhas. Ela segura no colo sua recém-nascida, Rana, de 3 anos, que tem uma mão enfaixada e as bochechas salpicadas de queimaduras provocadas pela explosão. Sentado sobre o mesmo cobertor, Mounir, 9 anos, com uma compressa sobre o olho esquerdo, engole biscoitos, com ar ausente. "Ele está na mesma escola que Hadil", explica Haifa, diretora da escola. "Todos os seus camaradas estão chocados. Como ensinar a paz para as crianças dentro de condições como essas?"

 

(http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2006/04/14/ult580u1930.jhtm)



Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 21h09
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