Finalmente o Carnaval.
Estava ansioso pela chegada do Carnaval. Não sou folião e nem gosto daquela muvuca de bebuns e cabeças-de-bagre, mas coisas importantes vão acontecer assim que o reinado de Momo for exterminado pelas cinzas da quarta. É que algumas pessoas de quem preciso para concluir uns dois ou 3 assuntos de trabalho que vão me proporcionar resultados que persigo desde o início do ano passado resolveram parar tudo e nãotrabalhar nos últimos dias por causa da folia... Não sei como pode alguém em dias tão estranhos como os que estamos vivendo nesse início de Milênio, deixar tudo pra depois do Carnaval.
E olha que para chegar até o ponto de conclusão desses assuntos foi preciso enfrentar uma peleja digna dos bravos, responsabilidade que dividi com Baltazar e Flavio, companheiros nessa jornada. A primeira dificuldade foi convencer o cliente de que o valor que arbitramos para nossos serviços era proporcional à dificuldade e complexidade do que ele pretendia conquistar. A assinatura do contrato foi um "parto a fórceps", mas conseguimos exatamente o que achamos justo. Os caras que representavam os interesses do cliente não eram exatamente o tipo de pessoas capazes de compreender o contexto e avaliar adequadamente determinados fatores, e isso dificultou enormemente a negociação. Não menos complicado foi organizar uma agenda de trabalho que exigia a mobilização das mais variadas competências, indo do direito à gestão de negócios e geologia, e emprego de considerável diversidade de recursos tecnológicos.
Mas o que realmente provou nossa competência e determinação foi realizar o trabalho. Tivemos que conciliar o interesse conflitante de pessoas de poucas letras embrutecidas pela labuta em condições totalmente desfavoráveis. Numa das, digamos, "rodadas de negociação" a discussão foi entremeada de ameaças e enfrantamento que, por pouco, não chegou às vias de fato. Nessa ocasião estávamos o Baltazar e eu na casa de um cabra que liderava uma família de 9 irmãos numa cidade perdida em algum lugar na fronteira de Goiás, Mato Grosso e Tocantins. Cada um desses homens estava acompanhado de seus filhos, genros, netos. Não havia entre eles próprios concenso quanto ao que deveria ser feito e a discussão seguia sempre para o imponderável. Em meio à essa orda apenas o Baltazar e eu, munidos de coragem, determinação, metas claras e, lógico, um 38. Mas nossa inteligência foi suficiente e não precisamos usar o recurso extremo. Noutra ocasião, desta vez numa cafeteria de Goiânia, o Baltazar, Flavio discutíamos com o próprio cliente e alguns de seus cabras, quando nos deparamos com uma em que fomos ameaçados veladamente em meio à acalorada discussão. Os caras queriam, digamos, levar vantagem além da que combinamos e tiveram o descaramento de se negar a pagar o que nos deviam. Nesse dia, em particular, houve de tudo um pouco, até o ponto em que tivemos que esclarecer nariz-a-nariz que embora civilizados estávamos dispostos a reagir, violenta e furiosamente se fosse preciso. E assim, durante mais de dois anos de trabalho duro, enfrentando desde situações como essas até outras em que as armas eram o poder de persuasão e convencimento, aplicação de técnica e capacidade de flexibilizar o planejado, ajustando as metas conforme as circunstâncias, obtivemos sucesso.
Bem, mas o fato é que depois de tudo isso, de conseguir muito mais do que o cliente merecia, tudo ajustado e pronto, o cara encarregado pelo cliente para finalizar o negócio e cuidar de detalhes como lavratura das escrituras e, claro, o nosso pagamento, resolveu se entregar ao abandono das orgias carnavalescas, fantasiar-se de Colombina e fornicar com Momo, ficando para depois da merda do Carnaval a conclusão de todo o negócio.
Agora, fala sério. Pode um negócio desses?
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 17h29
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