Jungle Man X - O assalto.
Enquanto o ônibus manobrava na rodoviária de Eldorado de Carajás fiquei observando todo aquele movimento confuso e típico do interior do Pará. A noita estava especialmente quente e a umidade tornava o calor ainda mais evidente e desconfortável. Era impossível ficar alheio à tensão dos passageiros e todos pareciam querer afastar a apreensão conversando sobre desimportâncias. O ônibus seguia devagar, num zigue-zague irritante para desviar dos imensos buracos daquele trecho da estrada.
Depois de rodar aproximadamente uma hora o ônibus reduziu a velocidade para passar por uma das milhares de crateras, mas desta vez parou por completo e permaneceu assim por alguns segundos. Houve uma movimentação nervosa dos passageiros, até que um sujeito que estava sentado bem próximo à cabine do motorista levantou-se rapidamente e veio correndo para o fundo do ônibus. As luzes do corredor foram ligadas um pouco antes de um sujeito gordo e atarracado, com a cabeça e o rosto emcobertos por uma camiseta e um revólver imenso numa das mãos, abrir a porta que separava a cabine do motorista e anunciar sem nenhuma solenidade:
- É um assalto! Se alguém se levantar ou me encher o saco leva chumbo. Fiquem quietos e sentados.
Ainda com as luzes internas acesas o ônibus arrancou, com o tal sujeito andando de um lado para outro no corredor, apontando a arma para as pessoas e ameaçando atirar no primeiro que se levantasse. Depois de alguns instantes abriu a porta da cabine do motorista e mandou apagar as luzes internas para não chamar a atenção. Um silêncio mortal tomou conta dos passageiros. Alguns tentavam conter o choro e movimentavam-se com cuidado nas poltronas, temendo uma reação violenta dos bandidos.
Imaginei que se chegasse a Marabá precisaria pelo menos da carteira de identidade e de algum dinheiro para as necessidades mais mesquinhas e para garantir o retorno para casa sem privações mais severas. Aproveitei a escuridão e o descuido do bandido, que estava a alguns metros à minha frente, peguei a carteira no bolso e retirei dela a identidade, o cartão de crédito e uns duzentos reais, escondendo tudo na manga da camisa, que arregacei até acima do cotovelo. Sabia que estava me arriscando, mas achei que como havia mais de mil reais na carteira os bandidos se dariam por satisfeitos. Voltei a carteira para o bolso das calças, e tentei me acomodar na poltrona controlar a respiração.
Embora todos estivessem calados e absolutamente imóveis, a respiração ofegante e o choro contido de alguns passageiros tornava o clima sombrio e aterrorizante dentro do ônibus, que continuava trafegando. Não tinha nenhuma experiência com assaltos e fiquei imaginando o que aconteceria nas horas seguintes. Pensei nas minhas filhas, em meus pais e na minha vida. Será que minha história terminaria ali?
O ônibus reduziu a velocidade, fez uma manobra para a direita e deixou a rodovia, entrando por uma estradinha de terra. Ao nervosismo contido somou-se grande inquietação entre os passageiros. Nesse momento tive medo, muito medo do que poderia nos acontecer. O ônibus seguiu ainda por algumas centenas de metros, até que parou numa clareira. Quando o motor foi desligado houve grande agitação e o choro de alguns já não podia ser contido. Um dos bandidos abriu a porta da cabine do motorista e mandou que os homens saissem do ônibus com as mãos da cabeça. Do lado de fora do ônibus haviam outros dois bandidos também encapuzados e armados, que nos colocaram em filas de 5 homens, umas ao lado das outras, na frente do ônibus.
A noite estava clara, o céu estrelado. Alguns caras tremiam descontroladamente, todos respiravam com dificuldade, ofegantes. Um dos bandidos entrou novamente no ônibus, onde estavam as mulheres e crianças, vasculhando bolsas, malas e os demais pertences sobre os bancos e o maleiro superior. Os bandidos que ficaram conosco do lado de fora nos alertaram que fariam uma busca minuciosa em cada um de nós, e se alguém tivesse escondido dinheiro ou algo de valor seria duramente castigado. Um dos bandidos ficou atrás de nós enquanto o outro, na nossa frente, ia chamando um a um para a humilhante revista. À medida que concluia o rigoroso "baculejo" e aliviava o infeliz do peso de seus valores, o bandido o mandava encostar na lateral do ônibus, ainda com as mãos na cabeça. Não conseguia parar de pensar na minha família e no quanto eu desejava sair dali e retornar pra casa. Fui um dos últimos a ser revistado.
Depois de mais de uma hora aguardando minha vez de ser revistado comecei a sentir câimbras nos braços. Finalmente o sujeito me chamou e me posicionou de costas para ele, com a cara encostada na lataria do ônibus e o cano do revólver encostado em minha nuca. Vasculhou minha carteira e bolsos, mas graças à Deus sequer tocou na manga da minha camisa. Eu suava frio, estava tenso mas controlado, e até conversei com o cara enquanto ele me espoliava. Quando terminou a pilhagem e mandou que eu fosse para o outro lado, onde estavam os outros, perguntei a ele se podia fumar um cigarro. Ele a princípio ficou em dúvida, mas em seguida concordou. Dei longas e profundas baforadas, tentando sufocar a tensão e afastar os pensamentos mais negativos da cabeça. Precisava ficar calmo e não perder o controle da situação.
Depois que todos os homens foram revistados e roubados, os bandidos nos mandaram entrar novamente no ônibus, onde estavam as mulheres, as crianças e o terceiro bandido. Não molestaram nenhuma delas mas todas as malas e bolsas haviam sido reviradas e o que não foi roubado ficou jogado para todos os lados. Os bandidos mandaram que o ônibus ficasse ainda ali parado por uns dez minutos antes de retornar para a estrada, tempo suficiente para que eles empreendessem fuga. Foram minutos da mais pura agonia e uma vontade irrefreável de sair logo daquele lugar. Jamais senti sensação mais tranquilizadora como no momento em que o motorista deu partida e arrancou devagar no meio daquele matagal. Nesse momento alguns desabaram num choro copioso, outros começaram a rezar ou contabilizar as perdas. O caminho até chegar em Marabá, embora há poucos quilômetros, parecia não ter fim. Quando chegamos na cidade o motorista parou numa delegacia de polícia para registrar o acontecimento, mas preferi tomar um taxi até a beira do rio e celebrar minha vida com um copo bem gelado de cerveja.
Sobrevivi àquilo tudo. Nasci outra vez.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 16h37
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