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BRASIL, Homem, de 36 a 45 anos, sostenes.arruda@uol.com.br
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Jungle Man VI - Enfim o Sul do Pará.
Depois de muitas horas sacodindo naquele ônibus finalmente chegamos à cidade tocantinense de Guaraí no começo da madrugada. Dali por diante deixaríamos a Belém-Brasília, tomando o sul do Pará rumo a Conceição do Araguaia, Rio Maria, Xinguara, Eldorado de Carajás e finalmente Marabá. Era a parte do caminho que mais me interessava porque jamais havia percorrido aquele trecho rodoviário e estava empolgado com a possibilidade de me deparar com as paisagens e outras particularidades daquele lugar. O prazer do desconhecido.
As cidades não são exatamente lugares que eu escolheria pra morar. O calor é intenso, o clima abafado e as pessoas um tanto quanto rudes, indolentes. Há muita poeira, lixo nas ruas e a precariedade de recursos incomoda bastante. É difícil encontrar suprimentos banais como cigarros, café decente e coisas assim, mas é um mundo à parte, incrível e realmente interessante. Animais selvagens atravessando a estrada muito perto da área urbana, grupos indígenas misturados a pessoas comuns nas pequenas rodoviárias onde o ônibus fazia as paradas programadas. A vegetação, transição entre cerrado e floresta amazônica, é um espetáculo à parte e impressiona pela imponência, densidade... e pela devastação.
Nas poças sujas que se acumulam às margens da rodovia é comum encontrar animais selvagens, principalmente aves e jacarés imensos, que submergem ao perceber a aproximação humana - criaturas ajuizadas. Tentei várias vezes fotografar os bichos mas não tive sorte, a não ser por uma mancha confusa num dos negativos, de um jacaré-açu de quase três metros que encontramos numa lagoa no sopé de uma colina nas proximidades de Xambioá. O motorista cedeu aos meus apelos insistentes e parou o ônibus alguns metros adiante, desci correndo com a máquina na mão mas bastou que me aproximasse e a fera simplesmente sumiu debaixo d'água. Fiz a foto assim mesmo, mas além do barranco óbvio e da água suja há apenas uma sombra difusa que ninguém acredita tratar-se do tal lagarto corpulento da minha narrativa. Fizemos uma parada rápida em Xambioá. Não deu sequer terminar o café ralo e o cigarro, mas foi tempo suficiente para perceber a beleza única e brejeira da moça que me atendeu no balcão, uma cabocla maravilhosa com um brilho do olhar como nunca havia visto, e que contrastava com aquele lugar.
Ao longo de minha vida já tinha ouvido histórias fantásticas de viajantes que se aventuravam por aquele lugar, mas fiquei meio decepcionado com o que encontrei, algo bem diferente daquilo que imaginava ao ouvir os relatos entusiasmados de outrora. Chegamos em Eldorado de Carajá junto com uma chuva que parecia destinad a lavar os pecados do mundo, tal sua intensidade. Antes de seguir para a rodoviária o motorista parou num restaurante e avisou que almoçaríamos ali mesmo, indiferente aos apelos dos que insistiam em seguir até Marabá, já que faltava pouco mais de uma hora de viagem. A comida até que não era ruim: arroz com feijão, mandioca cozida e uma carne que até agora não sei que de que animal seria. Mas a parada compulsória revelou-se providencial porque a chuva forte tornou-se uma tempestade torrencial. Concordamos todos em esperar o tempo melhorar e ficamos ainda alguns minutos ali para só então seguir para a rodoviária, distante 2 quadras. Lugar pitoresco tomado por mendigos embriagados e crianças muito pequenas e desacompanhadas implorando viajar para localidades cujos nomes sou incapaz de lembrar; nenhuma autoridade. Enquanto embarcavamos para tomar o último trecho da viagem o motorista nos avisou que dentro de mais ou menos uma hora e meia, se nenhum outro imprevisto interferisse, chegariamos em Marabá. A notícia que deixou a tal loira ainda mais agitada.
Sentei-me confortavelmente na poltrona, aliviado pelo prenúncio da chegada. Enquanto pensava distraido e arreganhava a boca para alcançar os molares com o fio dental, ela se aproximou devagar e sentou ao meu lado. Sem nenhuma cerimônia e com cara de menina levada perguntou se ainda havia tempo para fazer aquela fotografia que eu propusera algumas horas antes. Ela exalava fenormônios enquanto falava e fiquei tentado pela possibilidade de guardar uma foto dela nua em pelo como um troféu da viagem, mas achei que aproveitaria melhor o pouco tempo me dedicando a prazeres imediatos, embora efêmeros, como um malho ou quem sabe... Mas nem havia terminado de secar o canto da boca e me desfazer do fio dental e ela me tascou um beijo de língua que me deixou tonto. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa a mão dela pousou com decisão no meu cinto, deixando claro que seria impossível aplacar sua gula apenas com um beijo. Mas o que aconteceu no percurso até nossa chegada em Marabá, é coisa que descreverei noutra ocasião. A rodoviária de Marabá é um lugar impossível de descrever. Ônibus, pequenos veículos do transporte alternativo, incontáveis bicicletas e muita, mas muita gente mesmo se embaralhando num espeço reduzido e totalmente desorganizado. Caboclos, índios, patrícios de todos os estados e estrangeiros emprestam ares de Babel ao lugar. Desembarquei.
O cara da empresa que deveria estar me esperando não apareceu. Simplesmente mudou de idéia e resolveu me esperar em Eldorado de Carajás mas não me avisou nada. Só quando me dei conta de que ninguém viria me buscar e telefonar para a empresa pedindo auxílio é que me disseram que eu deveria tomar um "transporte alternativo" e viajar outros quase 170 quilômetros de volta até Eldorado de Carajás. Que sacanagem. Tentei não explodir de raiva e me conformar, já que não me restava outra coisa a fazer senão seguir viagem e prolongar um pouco mais o desconforto daquelas estradas inóspitas.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 23h32
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Jungle Man V - A estrada.
Não devia haver mais que vinte pessoas no ônibus imenso, por isso me acomodei espaçosamente em 2 poltronas. Anotei na agenda alguns lembretes importantes sobre providências que deveria tomar logo ao chegar em Parauapenas, organizei os penduricalhos e me dediquei a ler um pouco. O caminho que percorreria nas próximas quinze horas era por demais conhecido, o que me deixava um tanto quanto aborrecido, sem falar na necessidade de prosseguir a leitura do material de trabalho que em algumas horas deveria realizar. Estava ancioso para chegar.
A tal loura era mesmo muito interessante, tinha os cabelos espalhados sobre os ombros, pernas longas e o olhar denunciava o desejo de se aproximar. Meu ego ficou meio abalado quando percebi que seu interesse não se limitava à minha pessoa, já que ela, não demorou muito, estava ítima de quase todo mundo naquele ônibus. A frustração inicial durou pouco. Ela passou por mim e resolveu se apresentar... A sorte começava a sorrir para mim.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 21h52
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Jungle Man IV - A partida.
Cheguei na rodoviária com o telefone celular esquentando minha orelha. Precisava fazer os contatos de urgência enquanto ainda podia contar com a cobertura do sinal. Minha operadora é horrível, depois de alguns quilômetros de Anápolis, minha adorável e impiedoza cidade natal, o celular se torna peso morto.
Desci do taxi e fui até a área de embarque me certificar sobre a previsão do horário de partida. Havia chegado meia hora antes do horário impresso na passagem e o sujeito do guichê me disse haveria um atraso de pelo menos uma hora. Brasil...
Aproveitei o tempo para perambular pela plataforma de embarque e fazer as últimas ligações. Comprei uma garrafa d'água mineral, tomei um café, fumei alguns cigarros e observei aqueles que, tal como eu, aguardagem a chegada do ônibus. Era gente de todas as tribos. Alguns nem despertavem suspeitas, era gente comum, dessas que você vê em qualquer esquina. Outros, no entanto, eram tipos realmente diferentes da média. Tinha um casal de idosos, certamente na casa dos 70, que mais pareciam um casal de namorados. O cavalheiro cercava a dama de todos os cuidados e mesuras, ao que ela reagia com indisfarçável encanto. Fiquei imaginando se teria a graça de viver um tão grande amor com aquela idade... Havia, ainda, uma loura falsa muito interessante de uns, mais ou menos, 25 anos - sou péssimo e sempre cometo erros imperdoáveis ao atribuir idades cronológicas às mulheres. Mesmo estando sentada de costas para mim percebi que me observava pelo espelhinho que usava ao retocar insistentemente o batom. E uma mulher muito pequena e magra, acompanhada de uma menina pequena que parecia um anjo, dotada de todas as travessuras e curiosidades próprias dos anjos. Fiquei alguns momentos fitando toda aquela gente, tentando imaginar quem eram, o que fariam no Pará. E me perguntei o que pensavam a meu respeito, já que além da loura percebi outros olhares furtivos. Também pudera, estava de bermuda, sandalhão de couro, camiseta, óculos escuros e a barba por fazer há pelo menos 3 dias. Não me admira a curiosidade, devia estar parecendo um "mala".
Fiquei algum tempo pensando quantas histórias, experiências, sentimentos, angústias acompanhariam meus parceiros de viagem. E me dei conta de que a própria vida é assim. Por um momento tive a certeza de que somos tão egoístas que mesmo vivendo tão proximamente com outras tantas pessoas nem nos damos ao trabalho de tentar compreender o que se passa com aqueles que estão próximos de nós. O tempo passou rápido que nem me dei conta de quando o ônibus encostou no Box de embarque. Mais rápido que imediatamente o motorista nos convidou para entrar.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 21h24
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Jungle Man III - A viagem.
Manhã de 9 de agosto de 2004. O clima estava agradável, fresco e Goiânia parecia estar mais bonita e atraente do que normalmente costuma ser. Embora nunca conhecesse Parauapebas, cidade no Sul do Pará onde devia trabalhar alguns dias, já havia bandeado em alguns lugares bem próximos, como Marabá, por exemplo. Por mais de uma vez, inclusive - isso eu conto outra hora.
Viajante experimentado, sabia que embora aquela região castigasse os transeuntes com causticantes 40 graus com efeito térmico de 50, na sombra. Por isso assoberbei a mala com roupas leves, mas levei nos braços uma jaqueta de couro, que junto com uma máquina fotográfica, livro e água mineral, além de algumas cuecas, meias, camisetas e escova de dentes, mesmo organizados numa bolsa de mão incomodavam um pouco. Mas o tempo previsto para a viagem chegava bem perto de 30 horas, boa parte deles em terra inóspitas e desprovidas de recursos, por isso achei prudente me prevenir para eventualidades e me conformei com o estorvo.
Fizera em 2002 o percurso rodoviário entre Goiânia e Belém, todo na Belém-Brasília. Mas quando estive em Marabá viajei de avião. Por isso o trecho rodoviário entre Guaraí, no Tocantins, e Parauapebas, eu desconhecia completamente. Por isso levei pendurada no pescoço a máquina fotográfica para os registros que gosto de fazer nos lugares onde nunca estive. E valeu a pena, como contarei mais tarde. Preciso retomar ao ponto de partida.
Mas isso é assunto para o próximo post.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 20h46
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Jungle Man II - The return.
Devo dizer que cheguei há alguns dias. Mas tinha compromissos importantes a cumprir, meu computador estava infestado de alguns worm's que me deixaram 'of line' por alguns dias. Enfim, estive atarefado e isso me deixou fora do ar.
E depois, confesso, estava um tanto quanto receioso com o que pensava em contar. Passei por poucas e boas, tive experiências incríveis, muitas aventuras. Acho que está na hora de contar antes que me esqueça ou fantasie alguns detalhes.
Pra não ficar cansativo, pra mim mesmo e quem mais ler, vou contar aos poucos a partir dos próximos post's.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 20h31
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Ser feliz...
Quero retomar alguns post's com uma crônica atribuída ao Mário Quintana - ainda não pude confirmar a atribuição. Foi minha gentil amiga Lázara Mundin quem me enviou. Em todo caso, é um texto imperdível:
"A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá d entro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade."
Obrigado, Lazinha.
Escrito por Sóstenes Antônio de Arruda às 20h15
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